Citações:

Sem o direito natural não há Estado de direito. Pois a submissão do Estado à ordem jurídica, com a garantia dos direitos humanos, só é verdadeiramente eficaz reconhecendo-se um critério objetivo de justiça, que transcende o direito positivo e do qual este depende. Ou a razão do direito e da justiça reside num princípio superior à votante dos legisladores e decorrente da própria natureza, ou a ordem jurídica é simplesmente expressão da força social dominante
(José Pedro Galvão de Sousa, brasileiro, 1912-1992)

terça-feira, 25 de outubro de 2016

DE FARDO A FADO

«— Lacaio do seu mestre — disse levantando-se. — É melhor falar aqui com os financeiros.
Para Saúl a história de Portugal era agora como esse cão que, por sistematicamente maltratado, mudara de dono e abanava a cauda. Ainda com a tristeza de suportar um fardo passado que, declinando, se tornava fado.»
© (Pedro A. Sande; Benjamin)

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

NÓS E OS OUTROS


Na realidade a vida é mesmo isto. O questionar constante. A avaliação diária dos nossos actos. A decisão que nos compromete perante os outros e a vida. Vale a pena? Nesta vida somos mesmo amados ou apenas instrumentos para? Pequenos espaços a ocupar entre viagens? O que perdemos ou não perdemos na nossa entrega? Até que ponto no nosso dar despojado podemos hipotecar a nossa liberdade, as nossas ideias, os nossos valores, a nossa ponderada assertividade? Que capacidade podemos esperar dos outros para se integrarem em nós? Para abdicarem de pequenos tiques, pequenas práticas, pequenas agendas pessoais ou de núcleos estreitos, ou estritos, pequenos alinhamentos, pequenas idiossincrasias? Até que ponto somos capazes de partilhar o nosso espaço ou os nossos afectos abdicando, ou não, de alguns dos nossos princípios, práticas ou da nossa própria comodidade? Que lugar ocupamos e ocuparemos na hierarquia dos afectos? Simétrico ou assimétrico? Até que ponto a bondade dos nossos sentimentos tem correspondência biunívoca real? Que frutos sairão, ou não, dessa dádiva ao outro? Que caminho traçamos para nós próprios? Quão descartáveis somos em cada instante, cada momento, cada futuro? Que exigência devemos impor ou quão transigentes, intransigentes, devemos ser nos pequenos actos do dia-a-dia? Que podemos esperar das palavras, sejam elas amargas ou doces? Que ligação tem as palavras com os actos e vice-versa? Que esperar dos outros? Que esperar de nós próprios? Que esperam os outros de nós? Que vida queremos viver? Que cedências estamos prontos a verter para, sendo nós, sem anulações, ou restrições, sermos também os outros? Que esperar da Vida na sua efemeridade? Que estrelas queremos ser? Que lugar queremos ocupar no firmamento? Que céu, purgatório ou inferno nos está destinado?
© PAS

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A CARTA



 «— Hoje, sonhei, marido. 
— Sonhaste com o quê, mulher?  
— Sonhei com uma criança que dizia para parares. 
— Para parar? Uma criança? Quem? O Zézinho?  
— Sim, o Zézinho, marido!
Maria Isabel... , moradora em Lisboa na Avenida 5 de Outubro nº 321 r/c., viúva do Capitão de Artilharia e Engenheiro Químico Ramiro..., vem apelar para os elevados sentimentos de V.Exª., expondo muito respeitosamente o seguinte: Meu marido, por virtude dos seus conhecimentos técnicos de engenheiro químico, prestou serviço na Fábrica de Pólvora de Barcarena desde 1925 até 1937, tendo falecido em Novembro desse ano. Como engenheiro da fábrica trabalhava na preparação e estudo de explosivos (tendo sido ele até quem procedeu ao exame dos restos da bomba utilizada no criminoso atentado contra V. Excª.) e, antes do seu falecimento, dedicava-se especialmente a um estudo sobre gazes (asfixiantes). No decorrer desse estudo teve várias intoxicações, sendo a última provocada pelo cloro, poucos dias antes de adoecer. A seguir a essa intoxicação sobreveio-lhe uma septicemia falecendo, depois de um sofrimento atroz, decorridos dez dias. Esses estudos e experiências eram realizados sem uma máscara ou outra qualquer defesa contra as intoxicações a que estava permanentemente exposto. Daí a ter acabado por sofrer a sepse que o vitimou, chegando a ter deitado, em convulsões, os pulmões aos bocados. Sofreu horrivelmente. Meu marido conservou até ao fim da vida uma perfeita lucidez e a consciência nítida das causas do seu mal. E, tanto assim que à hora de Deus o levar deste mundo, benzeu-se e disse: "Morro Cristão e morro pela minha Pátria"»
© (Pedro A. Sande; A Carta) 

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

ROMANCE PORTUGUÊS CONTEMPORÂNEO

Naquela espuma dos dias que nos atrai para os rótulos apostos, que desmerecem podermos nos afirmar como gente cauta, nunca encontrara em Miguel Real uma intersecção com a sua "potente" escrita e, pensava eu, sonorífera escrita.
Diria até, de Miguel Real, que a sua escrita me causara a mesma ardência que aquela causada por uma potente, deliciosa, tarte de lima.
Mas eis que tudo se reverte. 

Diz Real, no seu livro o Romance Português Contemporâneo, que nos faz lembrar um exercício de um autor estrangeiro consagrado dedicado a cânones que o romance, como o livro em geral, democratizou-se; deixou de se estatuir como um objecto intelectual, tornou-se um objecto de consumo como qualquer outro.
É verdade, amigo!
A alma humana e a evolução do mundo são consumidas em doses reduzidas, que os corpos e mentes se dividem explosivamente e pedem arrego.