Citações:

Sem o direito natural não há Estado de direito. Pois a submissão do Estado à ordem jurídica, com a garantia dos direitos humanos, só é verdadeiramente eficaz reconhecendo-se um critério objetivo de justiça, que transcende o direito positivo e do qual este depende. Ou a razão do direito e da justiça reside num princípio superior à votante dos legisladores e decorrente da própria natureza, ou a ordem jurídica é simplesmente expressão da força social dominante
(José Pedro Galvão de Sousa, brasileiro, 1912-1992)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O Enigma Dos Jovens Poetas Que Prosam: Variação Sobre!

Conheço o Nuno Camarneiro daqui: de uma escrita poética, que faz dos poetas escritores e de outras coincidências. Gente que pensa, reflecte, que se alimenta de uma melodia que nos vem do peito. A forma é dos pássaros. E no mundo dos pássaros não há coincidências, apenas o barulho ritmado das asas a quebrar paredes de vento.
No seu peito «não cabem pássaros», mas quando o escutamos ao perto ouvimos piares como se estivesse coberto de ninhos. 
O tempo hoje tem a idade dos que piam poesia! Jovens poetas que prosam! Vivemos no tempo do eu, dirão! Muito bem, portanto. Aqui em portugal mandam os que daqui são! Mesmo que no nosso peito não se alberguem pássaros, mas há sempre o acordar um dia! e «tantos sonhos que não são dias» (Nuno Camarneiro; Calendária; 2012)  e tantos países que um dia terão de se fazer forma! Portugal será nosso? ou esse sonho já é uma ilusão onde não cabe o sussurro das asas de «todo los» pássaros?
   

Os Jovens Poetas Que Prosam

Conheço o Nuno Camarneiro daqui: de uma escrita poética, que faz dos poetas escritores e de outras coincidências. Gente que pensa, que reflecte, que se alimenta de uma melodia que nos vem do peito. 
No seu peito «não cabem pássaros», mas quando o escutamos ao perto ouvimos piares como se estivesse coberto de ninhos. 
O tempo hoje tem a idade dos que piam poesia! Jovens poetas que prosam! Vivemos no tempo do eu, dirão! Muito bem, portanto. Aqui em portugal mandam os que daqui são! Mesmo que no nosso peito não se alberguem pássaros, mas há sempre o acordar um dia! e «tantos sonhos que não são dias» (Nuno Camarneiro; Calendária; 2012)  

Paris E A Autonomia Imaginária

Em, «Paris Após A Libertação: 1944-1949», Antony Beevor e Artemis Cooper, desvendam as teias de aparência quase ficcional de uma época de ouro para o olhar da ficção, quase se confundindo com a pior realidade imaginada de tempos cinzentos.
Em 1940, já o bispo de Arras, monsenhor Henri - Édouard Dutoit, na sua mensagem de ano novo, a cheirar a velho, se dirigia a «Messieurs et très chers collaborateurs» com esta fórmula pseudo-cartesiana: «Eu colaboro: por isso, já não sou o escravo a quem é proibido falar e agir e que só serve para obedecer às ordens. Eu colaboro: por isso, tenho o direito de contribuir com o meu pensamento pessoal e o meu esforço individual para a causa comum.» 
Autonomia imaginária, digna de um cartesiano manco, servindo que nem luva aos traidores de Vichy. Autonomia imaginária servindo que nem luva - como servidão e serva? - a todos os corpos estranhos, violadores e violados, por medo, sobrevivência, interesse individual,  das sua próprias consciências.
Beevor e Cooper relembram em (Paris Após A Libertação; 35), um episódio passado no departamento de Eure-et-Loire, em 1940, com um mártir da resistência, de seu nome, Jean Moulin.
Este patriota, resistente, é selvaticamente espancado, preferindo tentar opor voluntariamente a sua vida a assinar uma declaração falsa imputando à infantaria Senegalesa Francesa um massacre de mulheres e crianças. Isto na sequência de um seu pedido de explicações ao quartel - general alemão, pelo assassínio gratuito de  uma velha autóctone; patriota da sua própria dignidade, a velha senhora fora abatida e amarrada como aviso a uma árvore, pelas tropas nazis, pela resistência pacífica e indignada oposta à violação brutal da sua privacidade: «A minha casa é a minha fortaleza!», diria ela, como muito de nós que preservamos a liberdade e a autonomia.
Nem sempre a ficção ultrapassa a realidade, como nem sempre a autonomia reflecte a realidade, tornando-se uma Autonomia Imaginária.


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Dinis, Molero

Hoje, o Bookoffice publica a resposta do João Ricardo Pedro ao questionário de Proust, revisitado por Joel Neto. Ouvi uma vez o João ao vivo, e não me passou nem despercebido o seu humor, nem um certo desconforto por alguma falta de independência e de enfado pelas tarefas, exigência, do - pós atribuição do prémio LeYa; afinal, não há almoços grátis como esconjura o racional «homo - economicus». Tudo, condimentado com alguma ansiedade e até alguma dúvida assumida, honesta, pela sua continuidade na escrita publicada pois, como se sabe, «uma andorinha não faz a primavera».
E os três anos que assumiu com hombridade ter demorado a escrever o seu premiado livro, revelam um talento evidente, mas igualmente um sofrimento de trabalho artesanal feito com risco de não replicação, apesar da motivação «simpática» e acrescida. Concordo, também, como ele afirmou numa «mesa pouco redonda», de que ao autor nada mais devia ser exigido senão o acto de escrever. Mas compreendo que isso seria linguagem de marketing da oferta, não linguagem do posicionamento pela procura e quando as oficinas de escrita eram oficinas e não cadeias de montagem. 
Como compreendo igualmente o posicionamento das editoras num mercado de excesso de oferta, procura por defeito, défice de rendimento e/ou défice de leitura, num mundo «a deitar fora, livros, pelas costuras» bem, assim, com a cada vez maior dependência da imagem/comunicação como forma de «vida».
Assim se compreende, também, como a aposta que economicamente é o risco da editora, num novo escritor, tem de apontar para previsão de número de vendas que equilibre o actual esquema de Ponzi desta actividade. Assim se percebe «a fuga para a frente» das editoras, no futuro próximo ou neste presente «agora», para a venda de serviços editoriais, de «editing», de revisão, de comunicação,...    

Ser escritor publicado trás, assim, hoje, exigências muito para além da escrita. Obrigando a uma exposição que não é do inteiro agrado do escritor que se não se mova por pedantismo ou excesso de vaidade, já que a vaidade sem demasia é um factual «fillet» humano.
Comum ao afirmado pelo João é a minha cada vez maior dificuldade em reter e memorizar conteúdos de leituras. Talvez por ter um caldeirão já demasiado cheio, e sentir a necessidade de o ir aliviando e «soltando» como as panelas de pressão. O que torna a leitura diária um quase descartável, sendo a influência cada vez mais submergida num edifício, sempre incompleto, mas com ideias cada vez mais definidas que barram, pelos menos aparentemente, muito do «aspirado» e pouco deixam passar de inspirado.
Achei também graça, no questionário de Proust, à coincidência da sua resposta a esta pergunta: 

«E qual o parágrafo que mais lamenta não ter sido você a escrever ou, pelo menos, a frase?»
O Que Diz Molero, de Dinis Machado. «"Acho que todas as pessoas são mais ou menos infelizes", disse subitamente Mister DeLuxe, “mas os artistas são infelizes de uma maneira dramaticamente infeliz”. “Isso é muito agudo, Mister DeLuxe”, disse Austin com um olhar brilhante, “a isso apetece-me mesmo chamar uma definição”.»

Achei graça pela coincidência. Há cerca de seis meses entreguei uma cópia para submissão à edição de romance meu, escrito numa linguagem próxima de «O Que Diz Molero».
Escrito num mês e finalizado em Abril deste ano, o romance despretensioso, ainda quase em bruto, pretende ser uma homenagem a Dinis Machado, um escritor considerado menor até à publicação desta sua obra, um homem que é, para mim, um símbolo da grandeza e miséria do escritor, e da volatilidade da escrita. Dinis e Molero que li depois da sua morte e cuja obra cintilou na minha vida, a espaços, na minha memória.
Não tendo ficado no quadro de honra da rentabilidade, num país onde os livros se acumulam em catadupa nas livrarias antes de serem condenados à guilhotina, irei possivelmente o dar a conhecer como e  - book
Em memória de Diniz Machado e como um atestado de um exercício simplificado de escrita despretensiosa e humorada, esperando fazer que os mais novos revisitem DINIZ MOLERO.