Citações:

Sem o direito natural não há Estado de direito. Pois a submissão do Estado à ordem jurídica, com a garantia dos direitos humanos, só é verdadeiramente eficaz reconhecendo-se um critério objetivo de justiça, que transcende o direito positivo e do qual este depende. Ou a razão do direito e da justiça reside num princípio superior à votante dos legisladores e decorrente da própria natureza, ou a ordem jurídica é simplesmente expressão da força social dominante
(José Pedro Galvão de Sousa, brasileiro, 1912-1992)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Carta Aberta de Eugénio a Passos Via Pitta


Eugénio Lisboa
Quem pode dizer que as peças literárias não são também luta e poesia?
Não é fácil ser-se educado no carácter: traz-nos muitos amargos de boca num mundo onde o carácter já é confundido com fraqueza ou falta de esperteza.
Tive esse privilégio: o de ser educado por um homem e uma mulher com princípios de honestidade, onde não faltava o conceito de honra e o respeito pelo seu semelhante qualquer que ele fosse.
Isso hoje perdeu-se: os interesses que têm de ser devidamente alojados e acomodados primeiro que todos os outros, principalmente se forem os nossos, bem como o cinismo, estão acima de tudo de um modo obsceno: mas há também a adulação e a bajulação filhos do mesmo par.
Talvez aqueles que gostem de poesia, sejam poetas por isso: talvez pelo carácter, sem o qual não haveria nada para trazer da profundeza das sombras, à superfície! 
Por isso quem espera, desespera!

As Palavras Velhas São As Mais Doces

Olhar para as tuas palavras
Fazem – me vir palavras
Como se o prazer encontrasse um lugar
Para se libertar;
Como se as tuas palavras despertassem um riacho,
Fluído, uma torrente magmática
Que queima a dor
E faz estremecer um vulcão de lava,
Que de lava só a pureza
Da emoção que liberta.
Olhar para as tuas palavras
É dares as mãos às minhas
Como se as minhas te percorressem
Com emoção
Curando-me as lágrimas.

Não te desculpes
Com a velhice das palavras
Nem com as dores
Que vos vão da cabeça
Ao ventre;
A vermelhidão
Que encontraste
Não foi mais que o rubor
Que me roubaste
Por te sentir ao perto.
Se olhares por cima
Do meu ombro
Encontras uma vaga,
Onde poderás repousar
O teu queixo, e não,
Não digas que não voltas,
Porque já voltaste
Só que de uma outra forma,
Mesmo que tenhas apagado
Da areia, os búzios,
Que chamaste à praia,
Onde sopramos palavras
Renovadas e jovens.

As palavras velhas
São as mais doces
Porque vêm enriquecidas
De vulcões improváveis
Que se levantam ao céu.

Acarinhemos pois estas palavras
Mesmo que sejam velhas
Cubramo-las de uma substância adocicada
Como se lhe pespegássemos
Um açúcar em pó, fino,
Da fineza das palavras
Que atraem
Como o amor que se liberta
De um só beijo,
Que estende um sulco
De que não vemos
Fim e caminho. 

(05 Set. 2012)

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Reciclagem Literária

Trazido à liça o novo romance de Afonso Cruz, O Pintor Debaixo Do Lava - Loiças, a Cristina das «Andanças Medievais», menciona uma coincidência de excertos.
Não é fácil o tema num mundo em que somos cada vez menos nós próprios, sendo nós pedaços e retalho de muitos; onde começamos e acabamos? De que massa somos feitos? Quem somos nós, afinal?

De qualquer modo e salvaguardada a coincidência, O Pintor Debaixo do Lava - Loiças poderia também, num mundo de ilusões e espelhos, se ter chamado, O Escritor Debaixo Do Lava - Loiças: uma nova forma de arte de recolha aproveitando cada resto orgânico daquilo que vai sendo tragado pelo ralo. 

Afinal, todas as nossas ideias estão à mão de semear, num mundo onde «nada se cria, nada se perde, tudo se transforma»; vivemos no tempo da reciclagem e da sustentabilidade humana. 

Por Quem Te Tomas?

Talvez seja de arrogância este olhar que tomo
Desta minha pequena janela,
Como uma escotilha fechada e estanque
Por onde observo,
Cada movimento
Cada lamento,
Cada passo dado,
Por um meu semelhante.
Assemelhar-me-ei eu a eles
Cheio de egoísmo, arrogância, medo,
Ou serei um lugar intocado
E verdejante onde posso me postar sossegado
A observar o trilho 

E o trinar
Manso dos pássaros?

(PAS, 06 Set. 2012)