Citações:

Sem o direito natural não há Estado de direito. Pois a submissão do Estado à ordem jurídica, com a garantia dos direitos humanos, só é verdadeiramente eficaz reconhecendo-se um critério objetivo de justiça, que transcende o direito positivo e do qual este depende. Ou a razão do direito e da justiça reside num princípio superior à votante dos legisladores e decorrente da própria natureza, ou a ordem jurídica é simplesmente expressão da força social dominante
(José Pedro Galvão de Sousa, brasileiro, 1912-1992)

domingo, 26 de maio de 2013

EscreViver Com aMor VerdaDeiro

Há um escritor que faz da sua marca de vida, o escreViver, como se a escrita fosse a vida em pequenos episódios.
Quando era ainda quase um pré-adolescente, uma criança da minha escola perguntou o que eu queria ser, «agora que era grande». Achei estranha a pergunta, não a conclusão evidente de já ser um jovem alto. Respondi-lhe que queria ser escritor; e lembro-me de ter passado reflexamente a mão pelo buço onde alguma penugem já começava a despontar, tentando domar os espinhos que podia uma resposta dessas conter.
Peguei numa caneta e lápis e tentei desenhar uma figura sentada a uma secretária.
- És tão bonito? – disse. – E o que faz um escritor? – perguntou de enfiada.
Assustei-me. Corei talvez com a cor mais avermelhada que alguma vez encontrei desenhada.
Quando levantei os olhos já se afastava, levada pela roda - viva das amigas «da linda falua que vai para belém» (nunca percebi em toda a minha vida que belém era essa; talvez hoje uma dessa meninas, já adultas, me possa explicar sem ser por um desenho).
Como nunca fui bom desenhador, ao rodar a imagem para ver o que tinha desenhado, encontrei apenas este retrato que recordo e que não me parece hoje nada adequado a uma resposta a uma criança: mas as crianças são a inocência e o futuro... e o futuro pode ser alterado e moldado com formas a que chamamos valores, para "criarmos" adultos melhores e mais felizes.

O que é um escritor? Um escritor não é apenas um contador de histórias ou um fazedor de emoções e de situações: o superficial, o visual, a imagem, a futilidade não são para si prioridades maiores; apenas a compaixão, o pesar, a tristeza que esconde ou encerra o turbilhão de sofrimento humano a que somos (e sou, escrevi) particularmente sensível: dói-me, comove-me e invoca-me para a amizade, para o conforto, para o conserto, o sofrimento humano.
Nem é mesmo, o escritor, uma espécie de virgem com o que sente, vê, apalpa, ou uma espécie de pobre mal - amado, armado com aquela meia casca meio amarelada que o protege da queda do céu. Para o escritor desenhar e compreender os outros é uma paixão, um «matching» para a vida, uma paixão que sobreleva quantas vezes aos personagens.
Pelo menos não é nada uma parte disso, virgem dos demónios e pecados, nem sente o mundo dessa forma: não é, assim, pois o escritor, nem anjo nem diabo; nem vítima, nem algoz; apenas um ser sensível que se completa e preenche em dar a mão (quantos vezes em ceder o coração para puder mostrar ao outro como é tão simples cultivar a felicidade) a quem sofre (e tantos os há sem o saber), e tenta embrulhar o sofrimento num papel bonito, cheio de rendilhados e floreados e altos - relevos.
Um escritor é assim até mais um investigador, um pesquisador de emoções, de sentimentos, de lutas interiores - mais do que as exteriores que um historiador pode facilmente descrever - de angústias escondidas, de ilusões perdidas, uma espécie de um taxinomista do outro, um amigo excepcional, daqueles sinceros, espécie cada vez mais em extinção, dado o envenenamento em continentes de lixo que deixam muitos à superfície, aflitos, a tentar como peixes somente respirar.
Quando o escritor demonstra ter bom coração por gostar de ajudar demais, de confiar ou dar demais, de amar demais, é apenas a prova viva de que não é ele o verdadeiro sofredor por querer preencher essas condições que o fazem um ser humano mais completo. Mesmo que outros assim o não entendam ou reconheçam, reconhecem aqueles próprios que amam desinteressadamente o outro, sem condições, ao serem recompensados interiormente por isso.
E a carne, pequenina, diz-vos quem a si nunca a faltou (ou mesmo o material, que é uma outra espécie de carne) não vale metade de um espírito tranquilo, criador de personagens ideais num mundo melhor.
PAS 

sábado, 25 de maio de 2013

As Três Últ...

«No braço esquerdo tinha tatuado um espelho, feito pela melhor casa de tatuagens que encontrara numa viagem a Nova Iorque. Um espelho que se abria como uma piscina, onde se banhava um adónis com roupas de marca. Para uns, como os observadores atentos e não ocasionais, Ribau sofria de acumulação desse transtorno de personalidade narcisista, com todas as suas características...»
(As três últ...; PAS)
Há semelhança do "As três últ..." o dia hoje nascido brilhante e límpido reparte-se por três tarefas: a primeira, obviamente uma ida aqui perto, ao parque, para cheirar as (mais as velhas) novidades que se acumulam nas inúmeras chancelas representadas. 
A segunda, escreViver mais 4 ou 5 páginas do livro que se desenrola em cima.
Por fim, porque nem só de escrIta vive o homem, levar a Labradora a conhecer os cantos desta cidade, à procura de outros bichos com quem socializar. 
Esta última, a mais complicada das tarefas, já que «Levar» é uma expressão talvez torcida da palavra: mas ficam sempre outras sugestões em aberto.   

sexta-feira, 24 de maio de 2013

«Suidade»

A saudade é uma coisa estranha, um corpo estranho, mas porque o não haveria de ser se contém não só um sentimento de distância, de falta, mas também de amor.
Além de que a sua proveniência latina «solitatis» ou arcaicamente «suidade», está envolta no manto da saúde e da vontade de saudar. 
A «suidade» não é só de ontem, é de hoje, do momento e de amanhã.
PAS

O Tal Olhar

«Raio de coisa que me aconteceu hoje com um formando!
"Está com o tal olhar!" ouvi, entre o enublado e o acalorado. 
Fechei o portátil e olhei para a minha imagem refletida no vidro da janela. Havia ali qualquer coisa, sim. Olhando bem, era mais do que qualquer coisa. Era uma  coisa em grande. Uma fé. A bem dizer, uma crença, que é algo que mesmo bem descascado me sabe sempre a estranho. Disfarcei, usando o verbo interrogativo, algo que formando que se preze não gosta: prefere o expositivo. Expõe o mais à preguiça, embora aquele tom de voz me parecesse considerar ter sido de um terceiro tipo: o demonstrativo!
Raios, partam: já um «gajo» não pode estar descansado a sonhar de olhos abertos! E ainda isto vai dar quase até às 11 da noite.»
PAS