Caro Tavares,
A quem chamei filósofo
Embora te encontre nos livros
Como poeta, ficcionista
E escultor de palavras.
Poucos saberão quem és,
Nem tu o saberás por ventura.
Na tua mão está uma hermenêutica
Que te permite enamorar as frases
De um modo não possível ao simples mortal.
Na tua mansão estão dezenas de livros abertos
Cheios de figurinhas de santos e de diabos,
E centenas de cartas que atestarão
Que vives no seu seio,
No meio de sábios e de demónios,
E que com nenhum deles encetaste diálogo
Ou elucubração, fantasia, ou provocação,
E muito menos estabeleceste um pacto
Dos infernos, com sábios, diabos,
Ou com o próprio Lúcifer
E os seus temidos, irrequietos,
E leais mordomos,
Cujas lunetas encavalitadas nos cornos
Lançam centelhas
Arrasando como fogos de santelmo
A inundar e a bordejar a porta desses drenos
A que chamam poços dos infernos.
Esta viagem iniciada a Tavares
Lá onde mora Gonçalo M.,
Soube-nos a pouco,
Mas é porque o ar ainda está frio
No revirar das páginas
E das lombadas,
E o nosso corpo e o teu olhar
Nos parece enregelado,
E as nossas mãos ainda parecem
Lisas sombras, nada carcomidas,
E temos medo de nos precipitarmos
Nesse desfiladeiro às portas do abismo
E nos encontrarmos face a face com,
O senhor Juarroz, ou o senhor Valéry,
Ou o senhor Henry, ou o senhor Brecht,
Ou o senhor Calvino, ou o senhor Walser,
Ou o senhor Breton, ou o senhor Swedenborg,
Ou o senhor Eliot,
Já para não falar na máquina de Walser,
Ou no senhor Klaus Klump,
Ou sentirmos, como num laboratório,
Que se poderia - porque não? - chamar de (…),
(Que a publicidade não é para aqui vinda!),
Laboratório Novalis.
E, arrastados pelo medo, pela ciência
E por ligações geométricas,
À perna Esquerda de Paris
Seguida ao perto
Pela do Roland Barthes e do Robert Musil,
Boiando, como aspirina em água,
Na colher de Samuel Beckett,
Ou,
Em Matteo que perdeu, desgraçadamente,
O emprego,
Encantado por uma sereia
Que encanta não pela beleza,
Ou pela graciosa cauda,
Mas pelo olhar.
(Quem não o perde agora, entretanto?,
Ao emprego?
Mais a mais se semear tamanhas,
E curvilíneas, pantominas?
Há quem lhe chame, viagens, delírios,
Sarcasmo, invejas,
Há mesmo quem ache
Uma imatura prova dos nove,
Uma velatura,
Com o invólucro todo,
De asno),
Ou com o senhor
Desse território a que chamam
Para além de Jesus,
Porventura o território
A que outros chamam de,
Jerusalém.
Caro Tavares
Toma atenção,
Porque só repito uma vez
Porque perdão e atenção
Só se obtêm
Em tempos de tanta avidez,
Como prova de enorme generosidade.
Não foste tomado pelos raios solares
Mas pelo incómodo de nos receberes
Nesta peregrinação pelos demónios
Do teu olhar,
Nesta procissão que te dá como um ser
Profusamente racional,
(Que de fé, se tem a razão?),
Um cartógrafo ou um geómetra,
Um epicurista, um cínico,
Desta nossa viagem, Gonçalo,
A um lugar que não encontrei no mapa,
Nesta nossa caminhada
Pelos lugares que habitas,
Nesta nossa viagem
A esse teu cantinho,
Nesta nossa viagem
A esse teu lugar improvável
De filósofo,
(De atomista a sofista,
De céptico a epicurista,
De estóico a escolástico,
De teocêntrico a cartesiano,
De empírico a positivista,
De marxista
(Materialista da história, Gonçalo?,
A existencialista),
Nesta nossa viagem à tua terra,
À terra da tua escrita,
Nesta nossa viagem,
Com a tua física e a tua química,
(E há quem te diga só um filósofo,
Quando está provado
Pelo acima posto e exposto
Que usas a trincha,
E a salpicas pelo
Corpo todo)
Nessa viagem
Que há muito iniciaste
E que partilhas
Com generosidade,
Nessa viagem
Que dobra vezes sem conta
O percurso à Índia,
Nessa viagem afinal,
A esse lugar mais do que provável,
Nessa viagem a Tavares.
PAS
http://anarquistadepapel.blogspot.com (pela palavra seremos mais humanos) Este blogue serve como extensão da secretária do autor, assim uma espécie de oficina de escrita.
Portal da Literatura
Citações:
Sem o direito natural não há Estado de direito. Pois a submissão do Estado à ordem jurídica, com a garantia dos direitos humanos, só é verdadeiramente eficaz reconhecendo-se um critério objetivo de justiça, que transcende o direito positivo e do qual este depende. Ou a razão do direito e da justiça reside num princípio superior à votante dos legisladores e decorrente da própria natureza, ou a ordem jurídica é simplesmente expressão da força social dominante
(José Pedro Galvão de Sousa, brasileiro, 1912-1992)
(José Pedro Galvão de Sousa, brasileiro, 1912-1992)
terça-feira, 5 de março de 2013
segunda-feira, 4 de março de 2013
«Teimozia»
Não tenho pela teimosia a maior das considerações. Talvez a palavra mais adequada fosse, «admiração». Pela persistência, sim, e mesmo assim só quando segue os cânones da «convivialidade», da ética social e da humildade.
Teimoso é o chefe que lidera diretivamente , não o que tem uma liderança participada; teimoso é o homem do leme, que teima no erro, não alterando o sentido do seu rumo, levando-o em direção aos rochedos e à tormenta; teimoso é o ator que mantêm o guião apesar do enfado do espetador; teimoso é o Homem que impulsivamente invectiva a nova ortografia sem lhe tomar o pulso (já fui teimoso e ando-me a tratar; e libertando-me do lastro, sinto-me mais leve); teimoso é o que acha a sua teimosia, persistência, «porque, não!»
Não tenho pela teimosia a maior das considerações: mas neste particular e em todos os que dêem à cabeça a forma de cabeçudo, pela leitura e pela reflexão sua associada, até propunha uma nova forma ortográfica para esta palavra: «teimozia.»
sábado, 2 de março de 2013
Anorexia Do Discurso e Da Palavra
Há quem pense que escrever bem é sempre escrever curto e fino, enxuto, com isenção de calinadas linguísticas, de redundâncias curvilíneas, de gongorismos incríveis, como se fosse um homem ou uma mulher magros, quase anoréticos, dentro de um elegante fato de um corte que cai a direito. Só que escrever bem não pode ser só esta coisa sem graça, estando para a escrita enxuta e fina como o homem e mulher magros e desprovidos de carnes - os só ossos, com pouco para dizer e fazer para além da magreza de argumentos e de testamentos de vida - para aqueles a quem repousam gordurinhas inestéticas, cheias de uma carninha que os faz coisa despreocupada e apetecida - e vida para além de um corpses que já cheira a coisa acabada e a morte.
Engenheiro De Palavras
Ontem fomos designado de «engenheiros de palavras». Ripostei intempestiva, talvez extemporaneamente. Talvez o não devesse ter feito. Olhando ponderadamente, um engenheiro de palavras só fica a dever a um arquiteto de palavras. Os tijolos são o alfabeto; o cimento, as plantas e os esboços, o desenho frásico.
Uma afronta, pensei no momento, face ao carrego de conhecimentos carreado como arquiteto, quase escravo, de pirâmides e tômbolas de palavras e quando as lideranças ainda cheiram a algum mofo de usos e costumes de más práticas. Puxei de Maria José Sousa, uma guru de RH, uma orientadora de um mba ao estilo, «master but not arrogant.»
Não pela sua mão ou pelo seu saiote, claro, mas naquele livro de cor esverdeada, de métodos e «boas práticas» de gerir humanos com muitos ganhos e poucas perdas. Emaranhei-me nele, «fuçando» no seu miolo. Lá está!, sabia que lá estava: líder é aquele que, utilizando o poder de referência e o poder do saber, harmoniza as relações entre os operadores num contexto, negando-se ao autoritário ou diretivo, assumindo o democrático mais conhecido como o participativo ou consultivo.
Como dizia um velho general, num velho manual: nunca digo como havemos de lá chegar, pergunto, sim, como o havemos de fazer. Uma questão de sinergias, de inteligência emocional gestionária, de ganhos mais do que perdas, de individual para o coletivo.
Não é fácil normalizar e convergir para o mundo de adriano (moreira!): um mundo de convergência a uma só voz! Mas lá chegaremos, derrubando muros (de palavras)!
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