Citações:

Sem o direito natural não há Estado de direito. Pois a submissão do Estado à ordem jurídica, com a garantia dos direitos humanos, só é verdadeiramente eficaz reconhecendo-se um critério objetivo de justiça, que transcende o direito positivo e do qual este depende. Ou a razão do direito e da justiça reside num princípio superior à votante dos legisladores e decorrente da própria natureza, ou a ordem jurídica é simplesmente expressão da força social dominante
(José Pedro Galvão de Sousa, brasileiro, 1912-1992)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Tordo, O Ano Sabático E Os Portugueses

Não é fácil escrever diariamente para vários espaços, atropelando peças literárias com peças económicas, de gestão, de assuntos europeus. 
Duas das peças que já saíram hoje de um jato referem-se ao «sucesso como inibidor do coletivo», fragilidades e relatividades espaço temporais, felicidade individual e coletiva, e tudo o que não concorra para ela, como apenas uma forma de nos enganarmos a nós próprios, um sinónimo de grande fragilidade que não concorre para um mundo em que os humanos se possam assumir como tal. 
Anteriormente reverberei a inepcocracia que faz parte do nosso património genético comum. Ora aqui, bem, como duas almas gémeas de uma sociedade muito de antigo regime, muito enquistada em ganhos e perdas individuais. Costuma-se - costumava? - até dizer que, felizmente, o melhor que portugal tem são os portugueses; infelizmente, o pior que Portugal tem são os (mesmos) portugueses. 
Para além disso temos bons ares, excelentes paisagens e dois mundos, ambos excludentes, um com uma forma rectangular de campo de futebol, outro, o do portugal dos usos e costumes. Em gíria jurídica: o portugal costumeiro e/ou o portugal e o portugalzinho.
Deste último fui ontem testemunha. 

Uma audição de uma comissão de avaliação das boas práticas universitárias, daquelas pré formatadas no tempo e nos argumentos, formais q.b., resquícios de «antigo regime», ilações formatadas de estado falido a reverberar uma universidade «avant le temps», democrática q.b, informal q.b., de resultados infinitesimamente superiores às enquistadas, arrastadas, formalizadas, conservadoras, pouco democráticas e participativas, em suma as de «antigo regime». 
Mesmo que algumas, hoje, traduzindo todos os currículos – em Inglês, está visto! - se tenham transformado em universalismos de vanguarda. O provicianismo avant le lettre, perdão, não era isto que queria dizer mas já não consigo apagar tal mancha.
Mas hoje, cabe mais falar aqui das almas gémeas do ano sabático do Tordo - embora como bom existencialista, a minha prima seja prima de todos (nada de entorses!) e o seu bocejo incomode outros primos de outras raízes da árvore. No limite como o José, o girafa, o Rodrigues dos Santos, somos todos descendentes de Carlos Magno, passando pelos Capetos, por Afonso Henriques e por maomé - daí gostarmos tanto de toucinho! 

O João, escritor esforçado, americanizado (paga o que deves, Quetzal! a Amazon é que irá dar), em construção, como estamos todos ao longo da vida, farto de ser espoliado dos seus bens inteletuais pelos «cavalos à solta de antigo regime» (força aí, ò Tordo!). 
Chegado aqui, só um parêntesis: é que da noite para o dia, apercebi-me que todos temos uma alma gémea dentro de nós. Como? Fácil. A primeira perceção veio de, Três Vidas. A segunda, de um fenómeno estranho, mas animador para editores e livreiros. De um dia para o outro, como um daqueles telemóveis de rotação automática, a minha alma ímpar desata a contrariar a alma par, que brandia o estandarte inflexível da luta contra o novo «acordo orthográfico», desatando a escrever ao fluir da pena: jato, inteletual, coletivo, perceção, …: que leveza, meu deus, quão mais fácil, terna, ágil, produtiva e rápida se tornou a minha escrita! Em vez de duas peças, três! Em vez de meia hora, vinte minutos. 
Será que é isto a que se refere mister Passos, quando se refere ao ajustamento? 
E força aí, ò Tordo, não deixes que te vendam, que te comam as tuas Três Vidas, ou será que foi o Hotel Memória que me custou três pacatos?Perdão, ò Tordo que eu sou português - mas tolerante, vive e deixa viver - e também tenho a «minha quinta da escrita!»
    

O Sucesso, Esse Inibidor Do Coletivo

Há quem julgue que o sucesso se mede em mais comendas, prémios, bens materiais. 
Tanto o reconhecimento como os bens tangíveis são de uma tal fragilidade e relatividade espaço - temporal que são elementos despiciendos para a nossa felicidade individual e principalmente para a nossa felicidade colectiva. 
E tudo o que não concorra para ela é apenas uma forma de nos enganarmos a nós próprios, um sinónimo de grande fragilidade, que não concorre para um mundo em que os humanos se possam assumir como tal.    

Universidade A Quanto Obrigas: Inepciocracia

Ontem estive a ser voluntariamente sujeito de audição de uma comissão de avaliação do ensino - superior.
Como quase sempre em Portugal, a audição decorreu sob a fórmula de uma prática formatada na sua abordagem e um formalismo de «antigo regime» - neste caso, apenas, de regime pedagógico vigente – não inteiramente amigo da «produtividade» das conclusões, que permitam implementar as melhores práticas dos sectores.
Uma audição colectiva que juntou 5 elementos da comissão nomeada pelo Ministério do ensino superior, provindos de universidades diferentes - do ISEG à Universidade Nova, da Universidade de Évora a uma Universidade Inglesa e outra de que não fixei os nomes, a cinco elementos finalistas discentes de MBA em modo presencial, mais 5 a distância via teleconferência.
A Universidade em questão, a UAb, é uma das Universidades de vanguarda deste país, pela modalidade na forma de relacionamento entre os seus actores, ou «shareholders», no sentido da partilha e na capacidade que este tipo de ensino demonstra de integração dos diferentes actores, mais próxima da realidade do que é hoje a gestão do conhecimento.
Universidade muito «utilizada» por quem, já tendo experiências de formação anterior, pretende não necessariamente enriquecer o curriculum ou propiciar-se um título académico como forma de «se alavancar», mas pretende realmente enriquecer-se através dos currículos e do conhecimento.
Como quase sempre em portugal, a comissão parecia já trazer um guião de «uma tragédia» previamente encomendada: a tragédia de um país que deixou de crescer querendo ajustar-se através da mediocridade do status atual, como se o amanhã só renascesse depois de todas as práticas já existentes serem «passadas a ferro grosseiro», sem qualquer tipo de «olhar» mais fino que «salvasse» as boas práticas, separando o trigo do joio.
Uma tragédia alicerçada na falta de financiamento público, com o risco inerente de reversão de um modelo que tão bons resultados tem trazido a um país, formativamente com um «gap» passado tão pronunciado de competências.
Um país onde as propinas são já tão elevadas e impraticáveis face aos rendimentos das famílias - pese embora comparações sempre possíveis com países onde as mesmas são elevadíssimas, e totalmente impossíveis de pagar pela grande maioria da população, esquecendo países onde o futuro constrói-se na sua quase inexistência (algo, elevação das propinas, que indiciaria um retrocesso não só do regime democrático, como resultaria na destruição desta tentativa da sociedade portuguesa de apanhar o comboio das competências, num mundo cada vez mais faseado, baseado e diferenciado no conhecimento.)    
As questões colocadas pela presidência da comissão focaram-se em duas ou três questões sobrelevadas pela resposta unânime perceptiva dos envolvidos (experiência consensualmente considerada como única, impossível de obter por outra forma e uma mais valia, muito para além de qualquer experiência de modalidade exclusivamente presencial, para todos os elementos sem exceção), mais em questões de não perceção do que em questões de perceção - «A ênfase no porquê de um número razoável de mestrandos terminarem as suas pós graduações e não avançarem para a defesa da tese?»
Uma resposta na altura não dada, que o modelo «pela rama» de audição – no sentido do tempo inflexível e curto para uma reflexão verdadeiramente clarificadora das experiências dos seus intervenientes, não permitiu.
A nossa resposta seria, pela perceção que é de todos – até dada por um pequeno estudo comparativo sobre diferentes tipos de modalidades de ensino que tive (mos) oportunidade de efectuar em seminário de projeto. E a resposta seria: «Porque o objetivo dos alunos desta universidade, pela sua tipologia - quase todos já inseridos no mercado de trabalho - visa essencialmente o enriquecimento concreto pelo conhecimento, mais do que a capacitação formal aos olhos societários: "o ser, o aprender, apreendendo, muito mais do que o parecer, ou o querer ser"»
Neste aspeto é curioso a similitude entre este tipo de audição presencial e os regimes presencial e de e-learnig a distância, debate coletivo pós-audição, quase como uma espécie de extensão nas duas horas seguintes dos debates in classe virtual, informalmente, com troca de experiências diversas, pós 50 minutos de audição.
No primeiro, as participações resumem-se e dividem-se por um espaço temporal diminuto, incapaz de agregar todas as participações, de acrescentar dúvidas, réplicas e de tirar conclusões – o tempo, o formalismo e as idiossincrassias são muitas vezes um inimigo da verdadeira abertura.
Por outro lado, no tipo de ensino sujeito a audição, porque objecto desta universidade, as matérias são dissecadas coletivamente com a participação de todos; para além desses espaços físicos se alargarem à reflexão democrática e coletiva, com total abertura e democraticamente, «just in time», de conteúdos actualizados e validados pela vida (o tal centramento na vida real) não dependentes de manuais pontos de chegada, mas exclusivamente pontos de partida, arregimentando pontos de vista, convergindo no melhor do que deve ter o ensino superior (a flexibilidade e a participação, tão pouco do agrado de um sociedade política fechada, enquistada e de «nobreza de corte»); não um ensino expositivo, amordaçado, unívoco (para que serve um ensino expositivo e de manual, num mundo a manuais actualizados just in time?), mas um ensino participado, cumulativo, biunívoco, embora encaminhado; dirigido pela perceção do mais relevante, traçado pelas orientações docentes, de orientação de rota, colectivamente re - refletido, de tempo alargado, não capturado.
O pior que o desconhecimento pode, é fazer involuir e reverter, tornando cada vez mais Portugal uma sociedade decadente, de falta de mérito e de falta de capacidade empreendedora, atrasado e de «antigo regime.»
É que a capacidade de empreendedorismo, a tal ligação à prática de que hoje se fala, só pode existir numa faculdade do futuro, em rede, passando pela liberdade, flexibilidade do espírito reflexivo e constante tomada de perspetiva filosófica: a todo o momento tenho de me actualizar e avaliar, porque o que eu sei em definitivo é que «sei que nada sei!»  

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Infinito Literário

Face a este gigantesco pico de letra morta, veio-me à mente uma enorme pirâmide onde enterrar os meus mortos, muito para além de qualquer Gizé. Uma figura pequena e frágil destacava-se trepando pela pirâmide, figura minúscula quase a chegar ao topo. O vértice no entanto parecia não alcançável e infinito. 
Aurélio deu-me um número: 435.000 verbetes, sem esquecer as margens. Peguei neles e introduzi-os numa máquina que tenho propositadamente para estes momentos, em que subo pirâmides. 
Na subida pelo pico gelado ia escorregando numa massa ainda informe: era gelo onde eu pensava já encontrar neve. À transparência e com o esfregar de uma luva sem cor, divisei um nome, neologismos: eram essas as margens. Entretanto, a máquina já estava quente: havia que prosseguir! Fatoriais, combinações, e o número não parava de crescer: impossível de encontrar, de um infinito de letra sempre viva que alegrava mais do que doía. 
Não seria já o meu olhar encandeado, dorido e cansado de tanta viagem?