Citações:

Sem o direito natural não há Estado de direito. Pois a submissão do Estado à ordem jurídica, com a garantia dos direitos humanos, só é verdadeiramente eficaz reconhecendo-se um critério objetivo de justiça, que transcende o direito positivo e do qual este depende. Ou a razão do direito e da justiça reside num princípio superior à votante dos legisladores e decorrente da própria natureza, ou a ordem jurídica é simplesmente expressão da força social dominante
(José Pedro Galvão de Sousa, brasileiro, 1912-1992)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A Quinta Da Escrita

Escrever o mais simples possível. Ordenar duas palavras como se estivesse numa ordenha manual, com a simplicidade de quem evita mecanismos complicados.
À primeira puxada vem de lá um R aleitado e espesso; à segunda, entre o sol que se levanta no horizonte que inunda a vacaria, e a impaciência da ordenhada, escorre em esguicho perfeito um O mais aguado; à terceira, é um M bem desenhado que sai revolto, e livre, da teta da vaca; à quarta, como se estivesse a subir e a descer uma montanha, um A entornado entrega-se confiante à gravidade; à quinta, entre o mugido prazeroso da vaca e o cheiro a estrume, sai de lá um N de «Nada será como dantes» de um sim que se escreve com «ene»; à sexta, já o balde quase entornado do alimento de bezerros, sai um arredondado e gracioso C; à sétima, e última, um novo mugido de agradecimento em E perpassa pelas paredes da vacaria, como se tivesse acabado de escrever um (r)(o)(m)(a)(n)(c)(e) simples, e bonito, com poucas mas nutritivas palavras.

Do Meu Livro A Publicar: Viagem A Dali ( )


Lisa.
Olha como carrego
Na palma da minha mão
Os seis dinheiros
Que me eram devidos.
Cuidaste de fazer esse sorriso
Enigmático
E não foste paga.
E é por ti
Que posei:
Pela vil exploração
De que foste alvO.
 P.A.S.

Foto: Salvador Dali. Self Portrait as Mona Lisa. 1954

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Susana Araújo: Poetisa do Anti-Crise E Do PEP! (Programa De Estabilidade E Poesia)

Numa linguagem que me está próxima, pelo menos na formação, diz Susana Araújo: “A poesia pode ajudar-nos a compreender o potencial disruptivo e criativo da própria crise". Analisemos pois, a sua tese:

PROGRAMA DE ESTABILIDADE E CRESCIMENTO
Tu vacilas, não queres ouvir e eu
não vou ter contigo a meio caminho
deposta, abandonada e irrisória
a ponte de ferro quebra-se
assim que o FMI avança

Um casal ainda criança
já refinancia
os seus juros
Não há compensação
para quem sonha severamente
enquanto espera pelo autocarro
durante o horário de Inverno
Vê agora, lá fora: uma
família que forja falsetes
tenta agarrar-se à rede,
frívolos esforços em que
os nossos filhos falham
O estímulo ao investimento
de iniciativa privada promove
a utilização proveitosa dos nossos
recursos: como esta faca de cozinha
que avança para nós com serrilha, sorrindo
combinação certeira entre a ergonomia
o melhor design e a qualidade
Todas as domésticas suturas serão
submetidas a uma rigorosa
análise de sensibilidade
Dorme bem, meu amor e
deixa a manhã reestruturar
a nossa dívida.


[in Dívida Soberana, de Susana Araújo, Mariposa Azual, 2012]

Calendário

Ao bater da meia-noite, faltam-lhe as passas!

Hoje o calendário transfigura-se… ou devia!
Torna-se uma imensidão de um mar infinito
Onde batem as bátegas sem sossego.
Hoje viramos mais uma página
Mantendo-nos no mesmo lugar,
Incapazes de movermos uma mão,
Ou um pé,
De um calendário
Que se mantêm idêntico
Sem se mexer,
Estranhamente estático
Ao revirar das páginas
Que fazem a vida
De um calendário.

Não me revejo já neste calendário
Desprovido de dias diferentes
E certinho como o fluxo
… E o refluxo do mar. 

Faltam-lhe dias!
(P.A.S., 31 Dez. 2012)