Citações:

Sem o direito natural não há Estado de direito. Pois a submissão do Estado à ordem jurídica, com a garantia dos direitos humanos, só é verdadeiramente eficaz reconhecendo-se um critério objetivo de justiça, que transcende o direito positivo e do qual este depende. Ou a razão do direito e da justiça reside num princípio superior à votante dos legisladores e decorrente da própria natureza, ou a ordem jurídica é simplesmente expressão da força social dominante
(José Pedro Galvão de Sousa, brasileiro, 1912-1992)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A Obra, O Leitor E O Aspirante À Escrita

Desde que a obra encontrou o leitor, que a aspiração à escrita se preocupa com a leitura da (sua) obra. 
Há quem queira negociar o livro, como quem não negoceie a sua semente nem a concessione a um putativo sucesso.  
Um livro tem de ser muito mais do que um produto de escaparate: tem de ser uma espécie de filho querido... e até pode ser pródigo! Não para o mundo, mas para nós, de quem esperamos que seja apenas e tão só a nossa extensão e o nosso orgulho. 
Mas, como em tudo na vida, há vários tipos de escrita e escritores, desde os que fazem da escrita passatempo, profissão, aos meros apaixonados. Escrever parece-me aparentemente um acto egoísta, mesmo que não seja esse o propósito e tenha a partilha como fim. 
Pensar para quem escrevemos, se parece mais altruísta, faz-nos esquecer quem somos e a que caminhos nos abandonamos: e, até, porque O Escritor não é um homem só.  
Um escritor pode ser um homem (ou mulher, bem entendido), um realista, um sonhador, um prosador, um poeta, um narrador, um cronista, um ficcionista... Pode ser tantos diferentes que muitas vezes não se conhece, «quando destila» a sua condição de pensador. 
A escrita funciona por patamares - em cada tempo há uma descoberta: em cada um desses socalcos vamos encontrando pequenos pedaços de um puzzle, que nos libertam aos poucos de todas as nossas preocupações e indicam caminho às pontas dos nossos dedos. 
Nesse caminho encontramos, por vezes, romeiros e apóstolos, que partilham a jornada. 
A estrada é comprida e o caminho longo - se porfiarmos sem desfalecer nessa jornada - mas lá ao longe sabemos estar o fruto da nossa demanda.

«Os Miseráveis» Que Temos De Combater Dentro de Nós

A literatura na sua forma de livreiros é cada vez mais um engano, uma espécie de pecadilho de almas adormecidas. Ou talvez não, já que «o cada vez mais» é de todo em todo injusto. «Sempre assim foi; sempre assim será.»
No «Meu Peito Não Cabem Passáros», do Nuno, reencaminha-me para todos aqueles personagens que transportamos na vida e para o enorme «fresco» de uma alma que devemos todos os dias despertar. Falo de Fantine - da doce Fantine! - do «nobre» revolucionário Marius; da apaixonada Éponine; da doce e bela Cosette; do senhor Benvindo, bispo de Digne - dessa dignidade feita bondade e reencontro com a humanidade - do dilacerado radical inspector Javert…
Da releitura desta sincrética ópera cinematográfica da obra de Hugo, em que tantos pássaros soam trinados e em que se transformaram os episódios – volumes, Fantine, Cosette, Marius, a rua Plumet e a epopeia de St. Denis e Jean Valjean - que me ilustrou, entre tantos outros clássicos, de caracteres a juventude - «cola-se-me» a imagem de Valjean, o injustiçado, o motor deste «estendal da epopeia e condição humana.»
Como sempre, retornamos aos temas chave da humanidade: a injustiça, o rancor, a liberdade, o amor, a pequenez e a grandeza, a crueldade, a maldade, a esperança, o reencontro, a luz de um novo recomeço.
Como sempre, a miséria só existe quando dentro de nós; e como - e quando - como Javert, amordaçamos dentro de nós as inúmeras personagens que fazem de nós Miseráveis: A Desumanidade, O Rancor, A Inveja, O Ódio, A Raiva, A Cegueira.
A este estendal, das misérias humanas, acrescentaria a indiferença que o nosso senhor Benvindo afastou com a sua fé na reabilitação humana, recobrando com paixão e bondade, o amor-próprio e a dignidade do ser humano.
Tantos «Miseráveis» que temos, todos os dias, de combater dentro de nós.
Que efeito de prémio maior recebemos todos os dias, a os ouvirmos e confrontarmos?

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A Quinta Da Escrita

Escrever o mais simples possível. Ordenar duas palavras como se estivesse numa ordenha manual, com a simplicidade de quem evita mecanismos complicados.
À primeira puxada vem de lá um R aleitado e espesso; à segunda, entre o sol que se levanta no horizonte que inunda a vacaria, e a impaciência da ordenhada, escorre em esguicho perfeito um O mais aguado; à terceira, é um M bem desenhado que sai revolto, e livre, da teta da vaca; à quarta, como se estivesse a subir e a descer uma montanha, um A entornado entrega-se confiante à gravidade; à quinta, entre o mugido prazeroso da vaca e o cheiro a estrume, sai de lá um N de «Nada será como dantes» de um sim que se escreve com «ene»; à sexta, já o balde quase entornado do alimento de bezerros, sai um arredondado e gracioso C; à sétima, e última, um novo mugido de agradecimento em E perpassa pelas paredes da vacaria, como se tivesse acabado de escrever um (r)(o)(m)(a)(n)(c)(e) simples, e bonito, com poucas mas nutritivas palavras.

Do Meu Livro A Publicar: Viagem A Dali ( )


Lisa.
Olha como carrego
Na palma da minha mão
Os seis dinheiros
Que me eram devidos.
Cuidaste de fazer esse sorriso
Enigmático
E não foste paga.
E é por ti
Que posei:
Pela vil exploração
De que foste alvO.
 P.A.S.

Foto: Salvador Dali. Self Portrait as Mona Lisa. 1954