Citações:

Sem o direito natural não há Estado de direito. Pois a submissão do Estado à ordem jurídica, com a garantia dos direitos humanos, só é verdadeiramente eficaz reconhecendo-se um critério objetivo de justiça, que transcende o direito positivo e do qual este depende. Ou a razão do direito e da justiça reside num princípio superior à votante dos legisladores e decorrente da própria natureza, ou a ordem jurídica é simplesmente expressão da força social dominante
(José Pedro Galvão de Sousa, brasileiro, 1912-1992)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Cidade Muito Líquida

Acabei de ler o conto «Cidade Líquida», do João Tordo.

Finalizado, fiquei com um sabor ao estilo cinematográfico de Hotel Memória, um Hotel Memória mais curto, uma espécie de exercício capitular de uma obra em construção.

Há muito que já sei que a cinematografia da nossa vida se joga numa empatia não desprezível. Há muito que sei que a nossa memória é pródiga em tudo e coisa nenhuma. O caminho será mais árido de aparentes felicidades, mas a Larguesa das vistas obliterará a vanidade. O tempo será, pois, de esperança renovada.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A Vida Num Sonho

Desperto para o dia sem ilusões nem esperança.
Nada é tão triste como a liberdade enclausurada,
Nem nada tão frágil como a liberdade à solta.
«Quem eu sou?
Quem és tu?
Que vontade conténs em ti?
Que saudade andas a arrastar?
Que futuro encontras em mim?»
Sentado à beira de uma pedra,
Num tufo de relva, desgastado o verde,
Transporto-me para a montanha
Que um duende parece ter colocado à minha frente.

«Serei capaz?
Serei suficientemente audaz para atravessar esta montanha?
Que perigos me espreitam por detrás?
Que homem sairei dos seus trilhos?
Que caminho tomar?»
À beira de um caminho
Recolho com a mão uma avezinha caída,
Que treme assustada.
Perguntei-lhe:
«Quem és tu?
O que aqui fazes?
Que voo seguiste?
Que amparo não tiveste?
Que corrente de vento te lançou ao chão?
Que dor é a tua?»
Aninhou-se na minha mão,
Enrolou-se e soltou um último suspiro.
Abri uma cova e enterrei-a,
Com algumas mãozadas de terra.

Quando voltei ao meu caminho,
Lancei um último olhar
E vi uma mão cheia de aves a esvoaçar
Em volta do local onde a tinha enterrado.
Quando me aprestava a subir uma pedra
Em forma de corcovado,
Ouvi um chilrear nas minhas costas.
Centenas de pássaros esvoaçavam em grupo,
Fazendo um longo rasto em formato de cauda.
Na sua frente ia um pássaro
Que brilhava como mais nenhum
E a cauda transformou-se num repente numa estrela
Que brilhava com enorme intensidade.
Esgotado, segui o meu caminho,
Momentaneamente amparado por esta visão grotesca, mas bela.

A montanha inclinava-se para mim cada vez mais
E era como uma escada para as nuvens,
Que se fantasiavam agora de formas de fadas, de animais, de deuses.
O ar começava a rarear naquelas camadas,
Ouvia a minha respiração ofegante,
As minhas veias a latejar,
O meu coração a palpitar;
O esforço em me encontrar com as pedras,
E os paus da natureza, porque a natureza não é só flores e folhas,
Era cada vez maior.
A vegetação rareava;
Rareava, também, onde me agarrar
Para contrariar o declive.
A cada passo, pretensamente ganho,
As pedras soltavam-se e faziam-me recuar.
Os meus joelhos
Começaram a arrastar-se por aquele deserto - pedregoso,
A sofreguidão esgotou o cantil.
Um último pingo adiou-me o cansaço
E a exaustão para o próximo movimento.
Aves de rapina de enormes dimensões e aspecto aterrador,
Espreitavam ao perto, cada uma a ocupar,
Como por ordem de Antiguidade,
As cristas das enormes protuberâncias rochosas.

Quando cai pela última vez por efeito da gravidade,
Que me queria levar outra vez de volta ao início do caminho,
Ouvi novamente um silvo de aves a esvoaçar,
A aproximar-se, centenas em bando.
Perto de mim, desenharam em círculos
Cada vez mais pequenos uma mão enorme,
Uma enorme mão que, pouco antes de desfalecer,
Senti puxar e elevar-me.

Quando acordei,
Parecia ter sido depositado num jardim imenso.
Abria-se à minha frente um enorme vale,
Onde milhares de pequenas aves esvoaçavam
Escrevendo no céu azul,
Como folhas ao vento,
Um flash com as seguintes palavras:
«A, VIDA, NUM, SONHO!»

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

UM Gosto Com Sabor A Movimento

Mesmo que estejamos aparentemente parados, sem actividade aparente, escrever é um acto que dá-nos a sensação de movimento.
Uma terapia, talvez, que contraria um certo torpor e adormecimento do corpo; ou como se diz hoje, por quem faz das palavras uso de todos os dias, escrever... é um gosto.

O Meu Pequenino Feitiço Indiano

Lembro-me bem daquela imagem de uma Índia Imperial recheada de árvores luxuriantes a abarrotar de verde;  e do calor que humedecia a pele - um calor sufocante; e do pó que arrastavam as minhas pequeninas botas, levantado alto à mais pequenina e rara brisa. Ao lado de um imponente fato branco, imaculado, colonial, de gala, impecavelmente passado, desfilava ordenado como um pequeno actor para uma câmara - que soube mais tarde alimentar-se de umas fitas - numa marcha meio marcial, meio teatral, coroada a continência de uma pequena mão, desfazendo-me nas mil macacadas que vira aos gestos meio loucos dos chimpanzés indianos
Animais que se passeavam, soltos, naquele lugar encantado, de homens tisnados pelo sol, mulheres portadoras de marcas circulares na testa e cobras, gibóias, que se enroscavam à noite nas caixas eléctricas à procura do calor do dia. 
Lembro-me bem e quase ainda não era nascido; lembro-me bem do feitiço dessa Índia que conheci e que me lembram por sonhos de menino infante e fitas descoloridas - a que chamam de feitiços passados de 8mm.