Citações:

Sem o direito natural não há Estado de direito. Pois a submissão do Estado à ordem jurídica, com a garantia dos direitos humanos, só é verdadeiramente eficaz reconhecendo-se um critério objetivo de justiça, que transcende o direito positivo e do qual este depende. Ou a razão do direito e da justiça reside num princípio superior à votante dos legisladores e decorrente da própria natureza, ou a ordem jurídica é simplesmente expressão da força social dominante
(José Pedro Galvão de Sousa, brasileiro, 1912-1992)

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Regresso de Eugénio

No Horas Extraordinárias, Rosário avisa-nos deste Regresso Feliz.
Como a decadência e a prostração tem sempre no horizonte o seu contrário, mesmo que ele esteja para além da linha do horizonte - e sejamos como viajantes no deserto sempre à beira da ilusão de um oásis que nos sacie a sede - vejamos como Eugénio de Andrade resolve o problema. 
«Quid pro quo» diria Eugénio - como já não ouviria desde Hannibal Lecter. 
A vida é definitivamente uma «corrente de escrita!»

Isto:   
  
«Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.» 


(Eugénio De Andrade)


Por aquilo: 

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


(Eugénio De Andrade)

No futuro, ao longe ou ao perto, haverá sempre um oásis!

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Visitar O Vale Formoso

A propósito do lançamento de um novo livro de poesia de Filipa Leal, Vale Formoso, publicado pela Deriva Editores, é extraordinário verificar como o Vale Hermoso em que se transformou Portugal, exige a visita aos diferentes Vales Formosos que vão desemperrando as engrenagens.
«Fazer o Luto» já quase não é necessário, porque há muito que vivemos no luto da complexidade de um país onde todos concorrem para o mau funcionamento da engrenagem. 
E quem não der um jeitinho ao toma lá, dá cá, morre à míngua como o carapau num charco. Bem precisávamos do Padre António Vieira para lhe encomendar mais sermões aos peixes e fazer deste Vale Formoso uma ria mais oxigenada.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

René Char In Chants De La Balandrane

ENTRAPERÇUE

Je sème de mes mains.
Je plante avec mes reins;
Muette est la pluie fine.

Dans un sentier étroit
J'écris ma confidence.
N'est pas minuit qui veut.

L'écho est mon voisin,
La brume est ma suivante.

René Char, in Chants de la Balandrane (1977)

René Char, Não É Meia Noite Quem Quer E O Maquis

Mais um excelente post que numa manhã de temporal , palavra motiva palavra, nos motiva rapidamente à reflexão. Primeiro o supremo título de escritaria que rimava com berraria, não fossem os livros para serem lidos em surdina. Depois a informação da Rosário sobre o «surripiar» títulos, acto muito feio e apenas condizente com o tempo cinzento, tristonho e despido do Outono. Mas, enfim, somos cada vez menos nós próprios e apenas pedaços de todos. 
«Não é meia - noite quem quer», do René Char, numa procura rápida das obras completas deste contemporâneo de André Breton, não é, aparentemente, título de obra: nome de poema, talvez, Rosário?
O Maquis do título do post? Ah, apenas porque adoro estórias de «resistência e bravura!»
«Poeta francés nacido en Isle-sur-Sorgue, en 1907.
Pertenece a lo que podría llamarse segunda generación surrealista iniciada en 1929, coincidiendo con la primera crisis señalada por el segundo manifiesto de Breton aparecido ese año. En 1934, debido a su afán de perfección formal,  se  alejó paulatinamente del movimiento surrealista.
Durante la ocupación de Francia por los alemanes, se destacó como capitán de maquís en la resistencia, y allí aprendió, según él mismo dice, "a amar ferozmente a sus semejantes". De esta experiencia en la lucha clandestina surgió su  gran obra poética "Páginas de Hypnos".
Es uno de los poetas cuya fama ha crecido rápidamente en los últimos años. Elogiado ampliamente por la crítica, es considerado como uno de los  máximos poetas de Francia.
Falleció en 1988.»