Citações:

Sem o direito natural não há Estado de direito. Pois a submissão do Estado à ordem jurídica, com a garantia dos direitos humanos, só é verdadeiramente eficaz reconhecendo-se um critério objetivo de justiça, que transcende o direito positivo e do qual este depende. Ou a razão do direito e da justiça reside num princípio superior à votante dos legisladores e decorrente da própria natureza, ou a ordem jurídica é simplesmente expressão da força social dominante
(José Pedro Galvão de Sousa, brasileiro, 1912-1992)
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sábado, 15 de novembro de 2014

DO PRÉMIO LEYA: OPINIÕES; A OPINIÃO DE RIÇO DIREITINHO

«Armar ou não ao literário?»
Estando a acabar de ler a primeira obra de Ana Margarida Carvalho, filha do escritor Mário de Carvalho, o «Que importa a fúria do mar», finalista de um dos anteriores prémios LeYa, não tenho dúvidas da sua qualidade para uma primeira obra.
Independentemente da suspeição e coincidência de um país grupal e de famílias, Ana Margarida Carvalho, jornalista de profissão, fez um livro de qualidade dando garantias que um próximo livro não defraudará os leitores. Aliás, sou da opinião que a escolha de um autor premiado devia não passar por uma obra, mas pela sua definição e ambição como escritor, pela análise da sua obra publicada ou impublicada, pelo estado da sua maturidade, algo que nunca se pode aferir instantaneamente ou numa primeira obra.

Concordo também com a avaliação de José Riço de os prémios LeYa terem alguma falta de maturidade literária (aqui até incluo o José Ricardo Pedro), de serem vítimas de uma geometria muito recorrente e de uma matriz muito pouco inovadora, bebendo na sistemática exploração de um universo rosa, da estória de cada um da nossa vida, possivelmente pela opção clara da LeYA em premiar iniciados dentro de uma determinada faixa etária, tornando-os e integrando-os como putativos escritores do Grupo (não nos esqueçamos que em trezentas e tal obras a concurso só cinco chegam para leitura do júri, as outras passam pelo crivo de exclusiva responsabilidade do grupo).

Ouvi, através de um vídeo, partes da obra do novo premiado. Infelizmente, mas não com surpresa, o trecho que ouvi achei algo fraquinho. Fez-me lembrar a minha escrita dos vinte anos. Claramente um estilo iniciático a quem ainda falta mundo. Mas repito, aquilo que ouvi (que é uma tendência e um sinal), não gostando de tomar a parte pelo todo.
A literatura não pode ser apenas cruzamento de leituras, ou colagem de mundos exteriores passados ou futuros, tem de ser cruzamento de vidas próprias, já que na escrita literária está necessariamente muito de camadas do autor: sangue, suor, lágrimas e obviamente uma visão geral e não apenas periférica de um mundo holístico e global. A nossa literatura menos escorada ainda na experiência e no tempo, com as óbvias excepções obviamente, tem aliás esse andar manco, coxo, ao apoiar-se demasiado no local e pouco no global; o glocal, esse, sim, parece algo mais sólido.

Mas oiçamos agora a opinião do José Riço Direitinho, crítico literário e autor do «Breviário das más inclinações» que será a minha próxima leitura e a quem mundo parece não faltar.
© PAS (Pedro A. Sande)

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O FOG E OS FILHOS DA POLIS

«Acabei de cometer o pecado de deixar cinco minutos depois da hora a viatura perto do Meu Palácio. Um fiscal, daqueles da EMEL, já que na cidade branca são já mais os fiscais do que os fiscalizados, olhou para mim com ar displicente mas justicialista, a quem foi cometido autoridade e poder de discrição. Fui lá buscar o prémio APE da filha de peixe sabe escrever, do Mário de Carvalho (desconhecia!), a Ana Margarida de Carvalho. As primeiras vinte páginas do seu "Que importa a fúria do mar", já cá cantam: decentes mas, por enquanto, não totalmente empolgantes. Um sabor de pastiche na forma, algo perfeitamente natural, já que mal seria que entre Pai e Filho não se transmitissem genes e orgulho. Do Mário, este já cheio de patine, estou a ler o seu último. Uma única palavra: soberbo! Entretanto, basta dar uma volta pela Avenida da República e Campo Pequeno para ver como Portugal definha. Cada vez menos Lisboetas na rua, olhares apáticos e infelizes, incapazes já de resistir à voragem dos anúncios de aumentos constantes e das baixas constantes de rendimento... Já exangues por uma corte feita nos Jotas prometendo-lhes aumentos de combustíveis, sacos de plástico, não mais verdes mas mais caros, mais taxas de INEM, sobrecustos de água, electricidade... que irão sobrecarregar seguros, adormecer vidas, tornar as famílias ainda menos funcionais... Uma loucura genocida, e suicida, sem fim à vista. Numa polis e num burgo, onde a falta de accountability e o mérito e o demérito são como uma pandemia de ébola destrutivo, que se cola e transmite por todo o tipo de apertos, de abraços, de fluidos... E na cidade branca, cada vez mais acinzentada, os cidadãos e a cidadania estiolam. Apenas se vendo a demérita EMEL na sua voragem "criadora, julgada criativa", numa cidade e polis cada vez mais doente, desertificada, a sofrer de anomia, de um tempo de passa culpas e «salve-se quem o puder», que é aquela forma de poder que se estendeu pela polis como uma mancha, como aquele nevoeiro do John, que podia ser de um werewolf, inicialmente de Carpenter».
 © PAS

sábado, 18 de maio de 2013